sábado, março 28, 2009

O HOMEM E O MOSQUITO


Acontece que os jovens de hoje, ao contrário de nossos avós espantados, nem mais se importam com o mundo eletrônico que têm aos pés. Digo melhor, aos dedos. Na verdade, quem se espanta somos nós, quando vemos a Internet, o DVD, o celular que fotografa, passa e-mail, grava, tem viva-voz, o escambau. Quase do tamanho de uma caixa de fósforo, é um monumento à inteligência criativa do homem, evoluída desde o velho Graham Bell.


O homem passou da idade da pedra ao século XXI por um processo instantâneo de adaptação cultural. Imagina o que nos aguarda nos próximos 20 anos.


Devemos prever que hão de vir não só uma onda de mudanças formidáveis, mas uma série de transtornos e convulsões. Os elementos da nova sociedade, em lugar de serem ajustados uns aos outros, serão cada vez mais discordantes, além de revelarem impressionantes vazios e enormes contradições.


Não demora muito, e a medicina será de todo guiada por um banco de dados. O clínico geral, depois de ouvir o cliente, consulta o computador, e este fará para ele o diagnóstico, adiantando-lhe o respectivo tratamento. (Só não conseguirá jamais diminuir o preço dos remédios, sempre escandalosamente altos e crescentes). Até mesmo as administrações públicas, nos três níveis, dispensarão a maioria de seus servidores, visto que as centrais eletrônicas trabalharão por eles, com a mais absolta eficácia, sem reclamar aumentos nem fazer greve, sem FGTS nem férias, sem licença para tratamento de saúde nem leitos no INSS.


E o homem? O que sobrará para o homem nesse mundo de computadores e robôs? Nada. Nadica de nada. O homem ficará escravo de si mesmo, acorrentado a botões. Justamente por isso Deus o criou no sexto dia, perdendo para o mosquito, inventado antes dele.

PERISCÓPIO

*****Escreveu um artigo espinafrando o velho político. E é metido a escrever bem. Mas só nos três parágrafos iniciais do artigo foram assinalados, a lápis amarelo, cinco erros crassos. Em vez de uma resposta em regra, que o abalaria para o resto da vida, mandaram-lhe uma gramática de presente. Embora se saiba que burro velho não aprende a marchar.

*****Vejam se entendem. Pessoas há, de fácil identificação, que no varejo até que têm talento. Mas no atacado são de comovente mediocridade.

*****Desde 1.500, o Nordeste tem sido prioridade-um de todos os governos. Uns safados. No Nordeste a ideologia vigente sempre foi o raspa-barril, cada um por si, e os outros que se danem. A região sempre viveu em um darwinismo niilista, única regra do jogo. Lula é um estirão da farsa.


*****Salvo as exceções de sempre (meu médico, por exemplo, o cardiologista Sérgio Macedo, dos melhores da praça), minha conclusão, de resto antiga, é a seguinte: a maioria deles permanece precisamente no nível mental em que Molière os encontrou no século XVII.

*****Nunca duvidei. Política é um assunto sério e apaixonante. Fazer política, poder dedicar-se à vida pública é uma honra, um privilégio ao qual só os melhores e mais preparados podem aspirar. O Congresso Nacional que o diga, na luta para varrer de lá as presenças que o envergonham.

*****Alguns escritores da terrinha, vez por outra, me dão a honra de inserir, em suas obras, pequenos trechos de algumas das minhas crônicas. Na mais citada, eu analiso a troca de cartas que grandes escritores como Machado, Bernard Shaw e sobretudo Mário de Andrade legaram à literatura universal. Que posso dizer?

*****Encerro a coluna ouvindo a “divina” Elizeth Cardoso, de voz belíssima, afinada como um violino cigano, cantando “Canção de Amor”, de 1951. A música é de Chocolate (Dorival Silva) e a letra de Elano de Paula, irmão de Chico Anísio. Elizeth soube valorizar muito bem, com seu belo timbre de voz, a melodia deste lindo samba.

***** “Saudade / torrente de paixão / emoção diferente / que aniquila a vida da gente / uma dor que nem sei de onde vem”. E assim vai até a frase final, “Canção de amor / saudade!” Esta composição projetou Elizeth, lançada pela editora Todamérica no mercado fonográfico, aproveitando outros talentos sem oportunidade noutras gravadoras.

sábado, março 21, 2009

A BOA REFORMA NÃO DEFORMA


Dentro e fora do Congresso Nacional, luta-se por uma reforma política, uma luta que não é nova e vem se arrastando desde a primeira hora da Constituição de 1988, a chamada “Constituição Cidadã” (para lembrar Ulysses Guimarães) e mais com jeito de parlamentarista do que de presidencialista.


Está certo que uma Constituição ruim é melhor que nenhuma Constituição. Criticá-la nada tem de censurável. Há muitos exemplos. Basta citar um: Benjamin Franklin, ao assinar a Constituição americana, escreveu: “Esta é a pior Constituição que podíamos fazer, mas, não tendo outra, aprovo-a”.


Houve muita divergência na elaboração da Carta de 88. Promulgada, porém, todos os presidentes juram cumpri-la... e vêm cumprindo. Sabe Deus como, mas vêm. Dizem os gregos que quando as coisas terminam bem, são boas. A Constituição de 88, segundo nossos gênios jurídicos, tem muitos defeitos e um deles, muito criticado, é o hibridismo, fato que transfere a governabilidade para os ombros do equilíbrio, da sensatez, da visão institucional do presidente, que deve estar vacinado contra a tentação totalitária.


E está, mais do que nunca, na exata hora de uma reforma política porque tem gente em Brasília de olhos arregalados demais. Hora, sim, de uma reforma política, e as razões são numerosas e urgentes. A hora é de estadista e não de mestre-de-obras. E a História tem sido mais generosa com os primeiros do que com os segundos. Este e outros temas têm gerado conflitos nos três poderes. Cabe ao presidente harmonizar conflitos. É indelével essa função.


A teoria da caneta e do Diário Oficial como instrumentos do poder, teoria muito chegada a Lula, sobretudo na decretação de MPs, agride o espírito democrático. Um Executivo todo-poderoso é incompatível com os ideais republicanos. Numa visão democrática moderna, vedada ao autoritarismo, sem vez num regime controlado por um Judiciário independente e um Legislativo forte. Que Lula coopere e apresse a tão esperada reforma política.


O mais alto cargo da Presidência é a coroa da democracia. Ela deve ficar sempre na cabeça. Tem espinhos, dignidade e grandeza, pois nela repousa todo o arcabouço do estado de Direito.

PERISCÓPIO

***** A crise financeira, que vai se acentuando a cada novo dia, vem acompanhada pela efervescência dos boatos. Não é mais murmuração. É uma praga. Como a dos gafanhotos.


***** Foi patética a passagem de Clodovil pela Câmara dos Deputados, o quarto mais bem votado do país. Com suas esquisitices, virou folclore. Agora, morto, que faça suas esquisitices onde e como quiser. Respeitemos os mortos, que carregam suas virtudes e defeitos. O nosso Congresso – sempre essa imagem fatal – continuará sua autoflagelação com atuações vergonhosas. Clodovil fez rir, o Congresso faz chorar (vá lá o trocadilho infame).


***** É na famosa carta de Benjamin Constant a madame de Charrière que ele conta a engenhosa teoria de um filósofo piemontês, segundo a qual Deus teria morrido antes de concluir a sua obra. O homem é bem um exemplo.


***** De Camilo Castelo Branco (vida infeliz que levou-o ao suicídio), que tanto idiota brasileiro desdenha como escritor ultrapassado: “Nunca é feliz com vestido de chita a mulher que tem amigas com vestido de seda”.


***** As duas vagas no Senado, caso Dr. Tasso (PSDB) se decida pela reeleição, já têm dono: uma é dele, a outra é do deputado federal Eunício Oliveira, do PMDB, que ainda pode conquistar a presidência nacional do partido. Caso Tasso tome outro rumo, a vaga dele deve ficar com o ministro Moisés Pimentel (PT). Isso só vale até hoje, porque amanhã, o futuro, é um espelho sem vidro. O mar pode virar sertão...


***** A repórter me pergunta em que ponto reconheço ou não reconheço Deus. Bom, acho que Deus – o Deus divindade que eu não creio que exista -- é um romancista linear, quando nos dá o nascimento, a infância, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte. E até hoje, como dizem os que crêem, ainda não mudou de técnica nem de processo.


***** observei que o pior colaborador é o chamado burro dinâmico. Limitado de inteligência e de cultura, quer fazer de tudo. E atrapalha, em vez de ajudar. Não há nada pior do que a ignorância ativa.


***** Lição que li não sei onde, guardei e gosto de lembrar: “Não rejeite com o pé a canoa que te permitiu atravessar o rio.” Fácil de guardar na memória, mas que muita gente esquece por amnésia de caráter.

sábado, março 14, 2009

CÃES HUMANOS, FLORES E ESTRELAS


Com a volta de Collor às notícias, lembrei de um dos seus ministros, salvo engano o Magri (pasta do Trabalho). Ficou famoso com uma frase. Foi surpreendido levando seu cachorro, um Labrador, ao veterinário em carro oficial, com toda pompa. Bombardeado pelos jornais, justificou-se: “O que tem isso demais? Cachorro também é humano.”


A frase é de alta indagação. Implica elucubrações filosóficas com incursões no campo da origem das espécies. Tem gente que não gosta de cachorro, mas é uma minoria. Em cada dez, oito gostam, segundo pesquisas sérias. Aristóteles foi quem primeiro definiu o homem como animal racional. Daí Lineu classificá-los de “homus sapiens” e os cachorros de “canis familiaris”.


Bom, eu não sou muito chegado a cachorro. Minha mãe não gostava de cachorro nem de gato. Preferia seus pássaros, papagaios, xexéus, sabiás. Tinha um sujeito só para cuidar deles. Eu tolero cachorro, mas não em apartamento. É ruim pra gente e para o animal, mas tenho um York que nos dá problemas e muito trabalho No sítio ou na casa de praia, vá lá. Dá para cuidar bem deles.


Na literatura e nas artes o cachorro está consagrado. Na Bíblia, é o companheiro do filho de Tobias. E vejam: Rômulo e Remo mamaram numa cadela, símbolo de Roma. E Cérbero, a criatura de Hércules, o cão mais famoso da mitologia, tinha rabo de cobra, de cachorro e de leão. Era cruel e fingido, comia a alma dos confederados, porteiro dos infernos. O velho cão de Ulisses, Argo, ao vê-lo regressar, morre de alegria, nos diz Homero. Graciliano Ramos imortalizou a cadela “Baleia”, na página memorável de sua morte. Carlos Heitor Cony dedica um dos seus livros a “Mila”, a cadelinha que lhe fez companhia por 13 anos. Josué Montello homenageia seu gato, que levava horas ouvindo Mozart.


O nosso Juscelino Kubitschek, ao fotografar-se com Adolfo Bloch e seu cão, não resistiu e disse, humildemente, que ali estavam dois amigos, “em cujos corações só há preces.” A família Obama escolheu, para morar na Casa Branca, um animalzinho da raça Cão D´Água Português, embora as pesquisas só apontassem um Poodle. O tema é fascinante.

Não só o cachorro. O humano também. Nos EUA, reza a lenda, na escala hierárquica da casa, o primeiro é o cachorro, depois a mulher, o jardim, o computador, o som etc. e fechando a lista, o homem. E eu me pergunto: animais e plantas são humanos? São Francisco tratava as aves de “irmãs”. O padre Vieira falava aos peixes, citando São Mateus, em latim: “Vos estis sal terrae.” Minha avó conversava com as plantas e ria, feliz, cuidando delas. Bilac não ouvia e entendia estrelas?

PERISCÓPIO

***** O grampo é o melhor retrato do Brasil de hoje. Talvez não chegue a se igualar à mansão de 25 milhões daquele moço de Brasília, a nossa Roma moderna, à espera de alguém que mande incendiá-la, um Nero esquerdista-centrista-direitista que, se me deixasse o número, eu o pediria para cantar um hino aos brasileiros humilhados e ofendidos. Caso não pudesse, o Protógenes cantaria ao telefone grampeado.


***** Pensando bem, meus americanos favoritos ou são judeus ou meio-judeus, ou são negros e tocam um instrumento ou praticam esportes. Prefiro o emocionalismo latino ao laconismo americano e acho o sangue-frio uma das piores qualidades humanas.


***** Busc foi o mais burro – talvez o único burro – dos presidentes americanos. Do jeito que queria pôr as mãos em Osama bin Laden, demonstrou apenas uma inacreditável burrice. Foi como designar sua manada de elefantes para encontrar uma mosca. E jamais encontrarão o maluco fundamentalista.


***** Não há copidesque no mercado, nem o do melhor computador, que consiga tirar uma vírgula que seja de qualquer bula acompanhante dessa droga nacional que é nosso Congresso. Se conseguir tirar, o Congresso piora e desaba na generalidade.


***** E se o sexo não fosse bom? Teria de ser compulsório, como pagar imposto de renda. As pessoas saberiam que ele é necessário, mas gostariam que outros o fizessem por elas. Os governos estabeleceriam prazos para os cidadãos terem a sua relação sexual do ano, sob pena de multa. Adolescentes seriam vigiados severamente pelos pais.


***** No Brasil, quando se trata de corrupção, nossos esforços são inúteis. O purgante não faz efeito, o susto não educa e os gatos escaldados correm todos para a panela.

sábado, março 07, 2009

Jornais, os que lêem, os que não lêem


Falam que João XXIII não lia jornais. Pior, detestava jornais. Conheço alguns coleguinhas que sequer lêem os jornais em que trabalham. Chegam a não gostar deles. Eu, de mim, confesso: sou leitor obsessivo de jornais, com eles nas mãos, sentindo-lhe o cheiro, do editorial à nota fúnebre. Não importa o que a internet proporciona. Tudo bem. Acho ótimo, mas o bom jornal é aquele que posso folhear, ler e reler o que me agrada, os artigos, as reportagens.


Chegam cedo, e eu os leio antes do café. E os leio com um olho crítico. Como velho profissional do ramo, estou sempre me perguntando se a notícia está bem feita, se o tom está certo, se merecia o destaque que lhe foi atribuído. Domingo é um problema. Antes de mais nada é preciso acordar mais cedo ainda para evitar que algum aventureiro se antecipe. Jornal lido e misturado é um terror. Não há como recompor o mínimo de ordem requerido para uma leitura eficiente. Missão cumprida, todos lidos, antes das dez da manhã é sinal de alforria, de dia ganho.


Parece incrível, mas conheço um sujeito que não lê jornais há uns dez anos. Deve haver mais gente assim. Então eu pergunto: por que as pessoas lêem jornais? A principal razão, penso eu, é para não pensar e, portanto, não sofrer. A leitura dos grossíssimos jornais seria um santo remédio contra o terror do vazio dos fins de semana, do vazio da solidão. Pode parecer curioso, até porque haverá sempre o “Fantástico”, mesmo longe daquele dos anos 70-80. Obliteração por obliteração...


Os que não lêem jornais são muitos, apenas passam os olhos para ter idéia, não do que está acontecendo, mas do que está sendo notícia. Desconfio que aqui está a essência do leitor de hoje -- a informação não interessa. Da imprensa espera-se, muito mais do que os fatos, o comentário, a crítica de costumes, a repercussão. Querem saber o que é notícia, do que está se falando, e não a notícia propriamente dita. Não é, portanto, de espantar que a qualidade da informação sofra o que o colunismo do “disse-me-disse”, do”quem é quem”, do repórter de telefone com suas “fontes”, tome cada vez mais espaço. Como jornalismo afinado com o desejo do público, está certo. Suas implicações para a política e a opinião pública é que me parecem complicadas.


Mas isso já é outra história.


PERISCÓPIO

***** A palavra de ordem é desenvolvimento. Tudo bem. Mas poucos se lembram que o desenvolvimento que cria valores materiais é o mesmo que não cria valores espirituais. Destrói valores tradicionais e nada coloca em seu lugar. A sociedade, prisioneira dos novos valores, dirige-se apenas para o sucesso nos negócios e o hedonismo.


***** Em tempos de crise, uma das perguntas mais presentes sobre o futuro das sociedades democráticas no Brasil é esta: – para onde vai a classe média? Ela é a grande força criativa da sociedade democrática. Mas há fortes indícios de sua proletarização e esmagamento em face da atual concentração de renda.


***** Houve um tempo, bons tempos, que os vereadores não eram profissionais da política. Reuniam-se, votavam, faziam a lei e estamos conversados. Poucas leis e nenhum subsídio. Trabalhavam de graça, Eram homens bons, e era uma honra ser homem bom. E assim foi por séculos. Hoje, mudou um pouco, não é? Quando vereadores, deputados e senadores passam por suas Casas, o pessoal canta a musiquinha carnavalesca: “Quando eles passam / Todo mundo grita / Estamos aí / Nessa marmita”. E que marmita, senhoras e senhores!


***** Alguns estudantes de Direito deram agora de ler o AI-5. E ficam conversando feito gente grande, falam muito no Márcio Moreira Alves, o Marcito. Já li o AI-5. Você já leu? Que coisa pífia, santo Deus! E aconteceu. No Brasil.


***** Ser lobista, em Brasília, é o quente, o clímax. Maquiada, a prática ostenta até um certo charme. Moças louras, presentes finos. Em sociedade tudo se cochicha. Só o moralismo brega ousaria condenar um profissional que come bem e bebe bem. Todo mesuras, é o petimetre da corte. O ameno pintalegrete, bom de papo e mão aberta. Resistir, quem há de?


***** Li num grande jornal, juro que li: “Mas o governador não interviu. Assim mesmo... “interviu”. E o tal de a nível de? Outro dia, um cara muito conhecido de todos nós, saiu-se com esta: “A nível de estatura, tenho um metro e setenta.” Como está na moda dizer, esse extrapolou. A nível de exagero, pelo menos.